Língua de gato
O chão de marchetaria está banhado pela luz amarelada do sol da manhã. Acima dele, uma janela que ocupa a parede de ponta a ponta. Estou sentada em uma mesa de quatro lugares, esperando minha xícara de chocolate esfriar.
A mesa está coberta por uma toalha afrontosa de tão branca. Mexo a colher desenhando um redemoinho no chocolate e a levanto, verificando a espessura da calda. Mais um pouco virava um brigadeiro. Ainda está quente. Lava de chocolate.
O pedido do senhor sentado na outra mesa acaba de chegar. Ele ansiosamente empurra o guardanapo pra dentro da gola da blusa, transformando-o em um babador volumoso. Ele dá um gole generoso no refrigerante e suspira, pra todo mundo escutar, como se o corante em líquido gaseificado acabasse de lhe despertar pra vida. Sua mulher o observa, dando um gole lento e discreto no líquido de sua xícara. Ela mergulharia na xícara e desapareceria, se pudesse.
Ele começa a cortar um croissant enorme, crocante, recheado com rúcula e um molho bem espesso. O molho brota à medida que a faca escorrega e a casca do croissant vai esfarelando igual um pastel folhado. Neste momento, algum francês passa mal em Paris.
Assisto à cena em câmera lenta até que um estalar de dedos em frente aos meus olhos me puxa para fora da minha mente. Eu volto a escutar o tilintar dos pratos, a bossa nova e o falatório do salão.
— Onde você está, hein? — pergunta meu marido.
Eu sorrio, verificando minha xícara. O chocolate continua quente. Levanto o olhar e dou de encontro com o olhar de uma moça, que o desvia no susto. Sem graça, olha para a janela buscando nada.
Olho para a mesa do outro lado. Há um casal. Os dois são esbeltos e posturados, até demais, tesos. Estão um de frente para o outro. O rapaz está com uma camisa fechada até o último botão. Quando ele fala, estica o pescoço em direção à moça, falando baixo, como se contasse um segredo. As mãos não saem de cima das pernas.
A moça veste um vestido com um laço na gola e verifica a todo minuto se ele está simétrico, encolhendo o queixo para tentar olhar. O garçom chega à mesa deles com uma taça grande de salada de frutas, bem colorida, chamando atenção o suficiente para deixar os dois desconfortáveis.
Antes de a taça tocar a mesa, eles já estão olhando ao redor. O garçom suspende bem alto um pequeno molheiro e começa a despejar na salada o que parece ser leite condensado, resultando numa pequena performance que ele parece ter ensaiado bastante.
Uma criança da mesa barulhenta ao lado fala bem alto:
— UAU, mamãe, olha! Quero uma dessa!
O garçom termina o show, olhando orgulhoso para a taça.
— Bom apetite, casal!
O casal fica um tempo imóvel, mexendo apenas os olhos. Talvez estejam esperando todo mundo parar de olhar pra começar a comer. Certamente arrependidos de terem pedido uma salada de frutas carnavalesca. A moça se apruma na cadeira, engole seco e, mais uma vez, verifica o laço do vestido. O rapaz disfarça mexendo no guardanapo sob o colo. Eu estou com um riso preso na minha feição.
Ainda com o riso preso, olho para a moça que estava me olhando. Ela está observando o casal. O olhar dela parece ainda estar percorrendo todas as partes da cena. Verifico a minha xícara. O chocolate continua quente.
Tomo um susto com palmas atrás de mim. Olho pra trás. Uma família bate parabéns para uma senhora simpática que usa uns óculos que fazem seus olhos ficarem grandes e redondos, igual uma personagem de desenho animado. Tornando-a, além de simpática, fofa. Ela começa a abraçar, agradecida, seus familiares. Estou voltando meu olhar para frente, com um sorriso no rosto, mas freio ao ver a menininha enfiando com vontade seus três dedinhos no bolo.
Ela os tira e os levanta, dançando-os no ar, admirando os dedos melados. Vai levando até a boca devagarzinho. Parece estar tocando alguma música na cabeça dela. Mas antes de sentir o gosto da pasta americana, recebe um tapa na mão. Ela pisca rápido e forte. A música na cabeça dela é interrompida como um disco arranhando.
Ela não ia chorar. Tenho certeza. Mas o olhar dela encontrou o meu. Eu viro rapidamente pra frente. Olho pro meu marido e ele está olhando pra ela com cara de dó. O choro da menininha cresce gradativamente. A senhora simpática e fofa agora não passa de uma velha rabugenta. Balanço a cabeça negativamente. Verifico a minha xícara. O chocolate ainda está quente.
Me levanto.
— Vou ao banheiro.
Sinto a moça que me observara me acompanhando com o olhar. Passo ao lado da mesa do casal. A taça da salada de frutas está vazia. O rapaz está empenhado em deixar as colheres alinhadas, sinalizando que o garçom poderia levar a louça suja. E a mulher, adivinha, checando o laço da blusa.
Do outro lado do salão, de onde a vista da minha mesa não alcança, o garçom da salada de frutas está em mais uma performance com o leite condensado. Todos ao redor observam. A dona da salada filma tudo, o que o deixa ainda mais performático. Ao lado dela, um rapaz ri enquanto acompanha a gravação, já a postos, com uma colher na mão. O show termina, e a mulher recusa a salada de frutas, empurrando-a pro rapaz ao lado, que esperava sedento.
Entro no banheiro.
No caminho de volta pra minha mesa, o pensamento está no meu chocolate que, não é possível, com certeza já esfriou. Sento já mexendo e tirando a colher da xícara. Opa. Agora a toalha pavorosamente branca cumpriu sua função, está suja de chocolate.
— Teu chocolate esfriou... — diz meu marido, dando uma pausa, terminando de mastigar pra continuar a fala.
Na pausa dele eu levo o chocolate até a boca, finalmente. Ao mesmo tempo, meu olhar encontra novamente o olhar da moça da mesa ao lado. Dessa vez ela não o desvia. Ela faz uma cara de “ui”, cerrando os olhos e apertando os lábios. De repente eu tô com língua de gato. Lagrimando, olho pro meu marido, que fala depois da pausa que deu pra mastigar:
— Eu pedi outro chocolate pra você, cuidado, tá quente.


Que crônica fantástica! Li e mandei para um amigo.